Depois de uma suspeita de fraude, a primeira reação pode ser apagar mensagens, reinstalar aplicativos, converter arquivos ou encaminhar tudo para várias pessoas. Essas ações podem eliminar contexto ou modificar os materiais. Preservar evidências significa manter os arquivos e registros o mais próximo possível da forma em que foram recebidos, documentar sua origem e evitar alterações desnecessárias.
1. O que deve ser preservado
O ideal é preservar não apenas o boleto, mas o contexto em que ele foi recebido e pago. Um arquivo isolado pode mostrar dados divergentes, mas a conversa, o e-mail, o endereço da página e o comprovante podem ajudar a reconstruir como a cobrança chegou até a vítima.
- Boleto: PDF ou imagem recebida, incluindo o nome original do arquivo.
- Comprovante: documento gerado pelo aplicativo ou internet banking, com os dados da transação disponíveis.
- E-mail: mensagem completa, remetente, destinatários, data, assunto, cabeçalhos e anexos, quando disponíveis.
- Mensagens: conversa completa ou contexto suficiente, identificação do contato, datas e arquivos anexados.
- Endereços digitais: URL da página, domínio, histórico do navegador e capturas de tela que documentem o caminho de acesso.
- Atendimentos: protocolos, e-mails de resposta e documentos fornecidos pelo banco ou credor.
- Equipamento: celular ou computador em que a mensagem foi recebida, se houver suspeita de interferência local.
2. Como guardar o boleto e o comprovante
Baixe o PDF diretamente do local em que foi recebido, quando possível, e mantenha uma cópia sem edição. Não abra o arquivo em um editor e salve por cima. Evite imprimir e digitalizar novamente, converter para outro formato ou recomprimir a imagem como única forma de preservação: uma nova exportação pode alterar metadados, estrutura interna, resolução ou outras características.
No caso do comprovante, prefira o arquivo emitido pelo banco em vez de depender exclusivamente de uma captura de tela. Se o aplicativo só disponibilizar a visualização, faça uma captura que mostre os dados relevantes e registre a data em que ela foi obtida. Não corte nem edite a única cópia; para compartilhar uma versão com dados ocultados, trabalhe sobre uma duplicata e preserve o original.
Se houver várias versões do boleto, mantenha todas. Não escolha antecipadamente qual é a “verdadeira”: nomeie-as em seu inventário pela forma como foram recebidas, por exemplo, “arquivo recebido por e-mail em 10h32” e “segunda via baixada no portal às 11h05”.
3. Como preservar e-mails e conversas
E-mails
Quando o serviço permitir, salve a mensagem no formato original de exportação, como .eml ou .msg, incluindo cabeçalhos e anexos. O cabeçalho pode registrar informações técnicas de encaminhamento, servidores e horários. Esses dados não provam automaticamente a identidade da pessoa que controlava a conta, mas podem ajudar a verificar o caminho da mensagem.
Uma captura de tela da caixa de entrada é útil para documentar o que o usuário visualizou, mas não preserva todos os campos técnicos do e-mail. Guarde, sempre que possível, o arquivo da mensagem original e os anexos separadamente.
WhatsApp e outros mensageiros
Não apague a conversa. Preserve o histórico disponível, os arquivos recebidos e o contexto das mensagens anteriores e posteriores ao envio do boleto. A exportação da conversa pode ajudar a organizar o conteúdo, mas não deve ser tratada como substituto absoluto dos dados mantidos no próprio aplicativo ou no aparelho.
Faça capturas de tela que mostrem o contexto necessário: nome ou número do contato, data, horário e mensagem relacionada. Evite publicar conversas em redes sociais ou enviar arquivos com dados bancários e pessoais para pessoas desconhecidas. Ao compartilhar material com um profissional, confirme primeiro a identidade e a finalidade do recebimento.
Páginas e sites
Se o boleto veio de um portal, registre o endereço completo exibido no navegador e a data e horário do acesso. Uma captura de tela pode documentar o que foi exibido, mas não demonstra sozinha quem operava o site ou quem controlava o domínio. Não volte a inserir senhas ou dados pessoais em páginas suspeitas apenas para obter novas capturas.
4. Por que o arquivo original importa
O arquivo original pode conter características que se perdem quando ele é convertido ou regravado: metadados, estrutura interna, objetos incorporados, fontes, imagens, anotações, assinaturas digitais e informações relacionadas ao software que o produziu. Nem todo PDF terá todos esses elementos, e sua presença não representa automaticamente autenticidade.
Uma boa prática é manter o original intacto e criar cópias para leitura, comparação ou testes. Registre quem recebeu o arquivo, de qual canal, em que data, como ele foi armazenado e quem teve acesso às cópias. Essa documentação ajuda a explicar o histórico do material.
A norma ISO/IEC 27037 trata de diretrizes para identificação, coleta, aquisição e preservação de evidências digitais. O NIST também destaca que a preservação de arquivos digitais exige atenção à origem, ao histórico de manuseio e aos mecanismos usados para verificar integridade.
5. O que é hash e o que ele não prova
Hash é uma sequência calculada a partir dos bytes de um arquivo por um algoritmo, como SHA-256. Pode ser entendido como uma impressão digital matemática do conteúdo. Se o arquivo for modificado, mesmo que de forma pequena, o resultado tende a mudar. Por isso, registrar o hash de um arquivo ajuda a demonstrar que uma cópia posterior corresponde, byte a byte, àquela que foi submetida ao cálculo.
Mas o hash tem limites importantes:
- não revela quem criou ou enviou o arquivo;
- não comprova que o documento já era autêntico antes do cálculo;
- não informa, sozinho, quando o arquivo foi produzido;
- não demonstra que o dispositivo ou a conta de origem não estavam comprometidos;
- não substitui a documentação de como o arquivo foi recebido e armazenado.
Se o hash for calculado dias depois do fato, ele documenta o estado do arquivo naquele momento, não necessariamente o estado original no momento do recebimento. Para uma análise formal, o procedimento de cálculo, a ferramenta, a data e o arquivo correspondente devem ser registrados e preservados.
6. Como organizar uma linha do tempo
Crie uma lista simples, sem tentar explicar o que ainda não sabe. Para cada evento, registre a data e horário informados pelo sistema, o fuso quando conhecido, o que aconteceu e qual arquivo ou protocolo corresponde a ele.
| Evento | Registro útil |
|---|---|
| Solicitação da cobrança | Contrato, fatura, pedido de segunda via e canal utilizado. |
| Recebimento do boleto | Arquivo, remetente, e-mail ou contato e horário de chegada. |
| Pagamento | Comprovante, modalidade, valor e data/hora. |
| Identificação da suspeita | Mensagem do credor, consulta de dívida em aberto ou divergência percebida. |
| Providências | Protocolos, BO, respostas e documentos obtidos posteriormente. |
Não altere o horário de um arquivo para tentar alinhá-lo com a cronologia. Registre o fuso e a fonte de cada horário. Data exibida pelo sistema, metadado do PDF e horário de envio em uma mensagem podem representar eventos diferentes.
7. Erros comuns a evitar
- Apagar conversas ou e-mails por vergonha ou preocupação.
- Editar o PDF original para destacar campos.
- Usar somente prints recortados, sem guardar os arquivos de origem.
- Converter o documento em imagem e descartar o PDF.
- Encaminhar o único arquivo por vários aplicativos, sem conservar a cópia recebida.
- Instalar programas de “limpeza” ou reinstalar o sistema antes de avaliar se o equipamento pode conter registros relevantes.
- Publicar documentos em serviços abertos de análise online, expondo CPF, endereço, contrato ou dados financeiros.
- Concluir quem foi o responsável sem evidências suficientes.
Se houver indício de comprometimento do dispositivo, evite continuar usando-o para operações sensíveis até receber orientação adequada. Não faça mudanças drásticas por conta própria se a intenção for preservar possíveis registros técnicos: documente a situação e procure assistência especializada.
Perguntas frequentes
Uma captura de tela serve como prova?
Pode documentar o que estava visível e ajudar a contextualizar um fato. Sempre que possível, preserve também o arquivo original, a conversa ou a mensagem de origem e os registros complementares.
Preciso calcular o hash do boleto?
Não é necessário para toda vítima. Guardar o arquivo original e documentar sua origem já é um passo útil. O cálculo de hash é uma técnica de verificação de integridade que pode ser aplicada em procedimentos de preservação e análise.
Posso enviar o boleto para um site gratuito verificar?
Tenha cautela. O arquivo pode conter dados pessoais, financeiros ou contratuais. Leia a política do serviço e evite enviar documentos sensíveis a plataformas desconhecidas ou públicas.
Se eu renomear o arquivo, ele perde o valor?
Renomear não necessariamente altera o conteúdo interno, mas é melhor manter o nome original e criar uma cópia de trabalho para organização. Registre qualquer alteração feita durante o manuseio.
Fontes e referências
As orientações abaixo foram consultadas para elaborar este conteúdo. Consulte os documentos oficiais para verificar atualizações e detalhes aplicáveis ao seu caso.
- ISO — ISO/IEC 27037: identificação, coleta, aquisição e preservação de evidências digitais
- NIST — Digital Evidence Preservation: Considerations for Evidence Handlers (NISTIR 8387)
- NIST — Digital Investigation Techniques: A Scientific Foundation Review (NISTIR 8354)
- Ministério da Justiça — Orientações após golpe envolvendo boleto
Conteúdo editorial do Golpe do Boleto. Revisão técnica identificada no cabeçalho. Atualizado em 03/11/2026.